Caretos à solta II

 

Depois do trabalho voltou para casa e a memória da fantasia do Pablo fê-lo abrir o Grindr, para ver se estaria online. O Pablo não estava, mas a meros 3km estava um perfil novo, a foto de um careto, que imediatamente lhe escreveu:

- Vais arrepender-te por me teres bloqueado.

O Francisco gelou, mas decidiu não se deixar intimidar.

- Bloqueio sempre perfis anónimos e o teu não será exceção.

Enviou e bloqueou-o de imediato. Mas aquilo não encerrava o assunto. O perfil estava só a 3km, era provavelmente um dos caretos que lhe invadiram a sala naquela manhã e essa possibilidade deixava-o inquieto. Ok era tradição e eram só os rapazes da aldeia, mas um deles usava o Grindr e sabia que ele, Francisco, também usava. Só que ele não fazia ideia de quem seria o outro. Pensou em desbloquear o perfil para tirar aquilo a limpo, mas isso implicava desbloquear todos os bloqueados... embora isso agora pouco importasse, a maioria deles estava lá longe em Lisboa. Hesitou, mas a curiosidade foi mais forte, não queria ficar com aquilo por esclarecer e desbloqueou.

- 2 blocks. Estás tão fodido.

Em vez de matar a curiosidade desbloquear o perfil apenas aumentou a sua ansiedade com aquela, mensagem. Não sabia o que responder àquilo. Só lhe ocorreu perguntar o que mais queria saber.

- Quem és tu?

- Um careto é um careto, é tudo o que precisas saber. Até logo, puta.

Aquela mensagem deixou-o verdadeiramente ansioso, aquilo já não tinha piada nenhuma. Começou a tentar escrever uma resposta mas deu conta que agora fora ele o bloqueado. Que raio era aquele até logo? Não, aquilo não tinha graça e ele já devia ter comprado um cão, como pensou algumas vezes. Tinha espaço, sentir-se-ia menos sozinho e serviria também para proteção, embora nunca se tenha sentido inseguro ali. Nem o uivar dos lobos que ouvia às vezes o inquietava, antes achava maravilhoso. Maldita a hora em que abrira o Grindr, maldita tecnologia, um resquício da cidade a manchar a sua idílica vida no campo.

Entretanto anoitecera, tentou esquecer o assunto e preparou o jantar. Mas aquele "Até logo, puta" não lhe saía da cabeça, assegurou-se que tinha portas e janelas trancadas e pôs-se a ver um filme na televisão. Achava que era uma comédia romântica, mas a dada altura um crime começou a desenrolar-se e numa cena em que um homem armado invadia uma casa deu conta que aquilo era demasiado suspense e excitação para a sua disposição e desligou o aparelho. Foi para a cama mais cedo do que o costume, iria antes ler um livro. Dos montes chegou o uivar de um lobo, mas desta vez sentiu um frio na espinha com aquele som. O canto da coruja tão pouco ajudou, uma vez disse na aldeia que achava o som maravilhoso, mas logo lhe explicaram que costumava ser mau presságio.

De repente pensou ter ouvido o som metálico de uma campainha. Devia ser só impressão sua, estava a ficar paranoico com aquela mensagem. Certamente um miúdo que ele conhecia, provavelmente ainda no armário, a querer testa-lo ou com homofobia internalizada. Mas enfim, não passaria daquilo, uma provocação de um jovem ainda mal resolvido. Com sorte o tal Leandro, o mais bonito da aldeia. Mas... agora era definitivamente o barulho de um chocalho lá fora. O mais provável era que fosse uma cabra tresmalhada do rebanho do Tio Zé, já tinha acontecido antes. E se fosse um careto? Não abria a porta e pronto, assunto resolvido. Fingiria já estar a dormir e apagou a última luz na casa. Fechou também os olhos, dormir era de facto o melhor a fazer. Mas algo ou alguém com um chocalho rondava-lhe a casa, era agora certo. Voltou a ligar a luz, não queria mostrar receio e na verdade, com a luz apagada aquilo só ficava mais assustador.

Os chocalhos eram agora dois, um perto da janela do seu quarto e outro do outro lado da casa. O ritmo era demasiado sincronizado para serem animais, dlim-dlão, dlim-dlão, em perfeita sintonia. Que diabo, pensou o Francisco. Levantou-se da cama. Um terceiro chocalho juntou-se à orquestra e finalmente um quarto. Quatro chocalhos à volta da casa faziam dlim-dlão. Só podiam ser os caretos. Que fazer, chamar a polícia? Parecia um bocado exagerado e certamente a polícia não viria da sede do município até ali para averiguar o barulho de chocalhos... O Joaquim!, era isso, ligava ao Joaquim. Bonito, não tinha rede. Para abrir a porcaria do Grindr havia rede, agora que era mesmo necessário não encontrava sinal. Estava por sua conta. Toque-toque-toque. Estremeceu com o bater na porta, foi um bater forte, violento até. O Francisco estava agora a tremer, quase a perder as estribeiras.

- Vão-se embora daqui, deixem-me dormir! – Gritou.

Mas o tom de vez atraiçoava-o, quem quer que fosse que estivesse lá fora percebeu que ele estava já em pânico. Sentia-se cercado, mas agora o silêncio era total. Será que se foram embora? A esperança morreu depressa. Toque-toque-toque.

- VÃO-SE EMBORA DAQUI!

Francisco tremia, suava, estava a perder toda a compostura. Apertou os punhos, contou até 10 e pensou, são só os rapazes da aldeia, certamente até os dois que fizeram arranjos na casa. Não havia razão para aquele medo todo, tinha que se controlar. Encheu-se de coragem e abriu a porta para lhes dizer isso mesmo. Tão depressa a abriu, tão desapressa se arrependeu, que estupidez. Um careto que lhe pareceu enorme estava mesmo ali e de imediato esticou a sua vara para o interior, impedindo-o de fechar a porta. Os vultos dos outros três logo se aproximaram e o primeiro estava já dentro de casa. A noite era de lua cheia, por isso não tiveram dificuldade em chegar a sua casa, cujo caminho não tinha luz pública. Francisco fazia um esforço enorme para se controlar e não mostrar o receio que tinha, mas a tremura traía-o.

- O que é que vocês querem?

O careto mais alto, o que trazia a vara, bateu-lhe com a dita no rabo. Ah!? Era aquela a resposta? Eles estavam-se a passar e estavam muito enganados, o Francisco era gay, mas não era passivo. Aquela insinuação deu-lhe alguma raiva e com isso alguma coragem.

- QUE CARALHO É QUE VOCÊS QUEREM? FORA JÁ DE MINHA CASA.

Os caretos começaram a dançar à volta da sala, com o Francisco no centro. A sala tinha espaço, só lá tinha ainda a TV e o sofá, andava a adiar a compra de mais mobília, calhou bem aos caretos, que pulavam e corriam uns atrás dos outros, com a incessante batida metálica dos chocalhos. Eram menos dois do que naquela manhã, mas dada a hora e o contexto da mensagem no Grindr aquilo era bem assustador. Francisco tentou recuperar a compostura.

- Ok, muito engraçado, muito divertido, agora se fazem favor eu preciso dormir, podem ir embora.

Os caretos pararam e voltaram-se de novo para a sua vítima, aproximaram-se e formaram um cerco apertado. Francisco tentou sair do círculo.

– Vá, isto não tem graça.

Mas os caretos logo lhe deram encontrões com os punhos, quase murros, para o manter no centro do círculo. Quando já estavam a meros centímetros começaram de novo a pular e a rodopiar, os chocalhos acertavam em cheio no corpo do Francisco, e o tecido do pijama não o protegia dos golpes, ia certamente ficar com uma série de nódoas negras. O pânico e a dor eram demais, caiu de joelhos quase em lágrimas.

- Parem, parem... por favor.

E os caretos pararam. Olhando de cima com as suas máscaras tenebrosas, fechando assim um teto demoníaco sobre o pobre Francisco.

- O que é que vocês querem de mim? Vão-se embora. Eu dou-vos mais dinheiro, eu disse que dava de manhã, mas vão-se embora.

De repente dois dos caretos baixaram-se e num movimento rápido e eficiente tiraram-lhe a camisola do pijama, quando o Francisco percebeu o que estava a acontecer já tinha o tronco nu. Com a vara outro careto bateu-lhe nas pernas. Que queria aquilo dizer? Queriam que tirasse também as calças?

- Não tiro. Saiam daqui.

Dois caretos agarraram-no e ergueram-no e outro baixou-lhe as calças. Cuecas não tinha, estava agora completamente nu na sua sala, rodeado por 4 caretos. Enquanto um o imobilizou segurando-lhe os braços atrás de si e outros começaram a tocar-lhe o corpo, dando beliscões aqui e ali, e batendo levemente nos colhões e sexo retraído do Francisco, que já chorava.

- Por favor deixem-me em paz, desculpem ter-vos bloqueado, se foi isso, mas vão-se embora, vá. Não é por ser gay que vocês me podem tratar assim, estamos no século XXI. Por favor.

Um careto deu-lhe um estado forte e fez sinal de que se calasse pondo o indicador na vertical em frente à boca da máscara. O careto que o prendia fez pressão para que se ajoelhasse. Outro careto revelou um sexo ereto e colocou-o a centímetros da cara do Francisco, horrorizado. Outro careto empurrava-lhe a nuca. A mensagem era clara, o Francisco devia mamar aquele pau. Era isso que os caretos queriam? Aproveitarem-se de um gay que vivia numa casa solitária para terem o sexo oral que as raparigas da aldeia lhes negavam? Francisco cerrou a boca, ele tinha amor-próprio, não era por ser gay que podiam simplesmente assumir que mamava qualquer caralho que lhe pusessem à frente. Mas a resposta foi um estalo, e outro, e ele só queria que aquilo acabasse depressa e se mamar o caralho ajudasse a dar fim ao tormento, pois dane-se, engoliu o caralho.

Era claramente um pau jovem, o cheiro, a suavidade da pele, e o aguentar-se menos de 2 minutos, logo enchendo de esporra a garganta do Francisco, apanhado de surpresa. Cuspiu a porra, mas a resposta foi uma cajadada nas costas, empurram-lhe a cara ao chão e foi obrigado a lamber o que cuspira. Um segundo pau foi-lhe apresentado, já sabia o que fazer, resistir era impossível, eles eram quatro e mais fortes, já se tinha mentalizado que naquela noite seria efetivamente a puta daqueles rapazolas, mas aquilo não ficaria assim. Como eram novos e inexperientes o tormento não devia durar muito mais, o segundo veio-se ainda mais depressa que o primeiro e desta vez engoliu tudo sem se queixar. Pau número três, mais grosso, ia-se engasgando, aguentou mais tempo, mas pelo menos esporrou menos, só umas pinguinhas. Francisco volta-se agora para o careto que faltava, o que tinha a vara, disposto a mama-lo e engolir-lhe a porra sem queixume. Mas o careto fez-lhe sinal que não com a cabeça. Os outros agarram-no e atiraram-no para o sofá, ficou de ajoelhado no sofá, com os braços imobilizados nas costas do sofá e atrás de si o careto da vara cuspia e lubrificava assim o seu cu, quase virgem.

- Não, isso NÃO, NÃO!

Gritou, mas logo um careto trouxe umas cuecas suas, que encontrou no chão da casa de banho e enfiou-lhe na boca. O Francisco já tinha experimentado ser passivo no sexo anal, mas nunca gostara, nunca sentira prazer, só dor. E agora não era diferente, sentiu que não tinha escapatória e o que melhor seria tentar relaxar o esfíncter, ou a dor seria só pior. Mas à medida que o careto o ia penetrando mais e mais fundo, sentiu a sua dignidade e orgulho a sangrarem. Cada estocada era um assalto à sua autoestima. Francisco soluçava, estava derrotado. Quando finalmente o careto se veio dentro de si já não sentia nada, nem alívio conseguiu sentir quando ele lhe tirou pau de dentro do seu corpo. Mas num momento de raiva e coragem, quando os outros lhe largaram os braços, voltou-se e arrancou a máscara do seu violador. O violador sorriu, não ficando intimidado, era bastante mais velho do que o Francisco tinha imaginado, talvez já nos 40. Aquele rosto era-lhe familiar, mas não sabia de onde. Ficou paralisado no sofá enquanto os caretos realizaram uma última dança em círculo na sala e começaram a sair um a um para o luar da noite.

Quando percebeu que estava só voltou a trancar a porta e foi tomar um duche para se lavar de tudo aquilo. Na manhã seguinte teria que ir à polícia, afinal seria capaz de identificar um dos agressores, mas de onde conhecia aquela cara? Por outro lado a queixa implicaria ter que abandonar a aldeia, nunca lhe perdoariam por pôr na cadeia homens da terra.

Quando acordou tudo aquilo lhe parecia agora um pesadelo, ele próprio punha em dúvida que de facto tivesse acontecido, no corpo não havia vestígios, nem uma nódoa negra apesar dos golpes que apanhou. Que outras provas tinha? Nenhumas. Quem acreditaria nele? E contra quem exatamente faria queixa? Mas como poderia continuar a viver ali depois daquilo? Pensando nisso abriu a gaveta onde tinha guardado a documentação da casa e foi aí que teve um novo choque, a foto do falecido tio, o rosto do violador, era daí que conhecia, era ele, tinha a certeza, era o mesmo olhar, a mesma boca, tudo. Mas? Como? Será que foi tudo um pesadelo?

Ao chegar à junta de freguesia para trabalhar hesitou se devia abordar o assunto com o Joaquim, mas nem saberia como o fazer. Precisava desabafar com alguém, mas não sabia como nem com quem, não com o Joaquim também não daria. Entrou na junta e apenas disse os bons dias, acelerando o passo para a sala onde trabalhava.

- Bom dia Francisco. Ouvi dizer que o seu ritual de iniciação correu bem, tem um presente à sua espera.

Francisco corou. Ritual de iniciação? O presidente da junta sabia o que tinha acontecido? Com que detalhe?

Entrou na sala e encontrou um fato de careto com ar gasto e uma máscara na sua secretária. Francisco gelou, uma gota de suor escorria-lhe pela testa. Joaquim surgiu nas suas costas dando-lhe uma palmadinha no ombro.

- Era do teu tio. Agora és oficialmente um de nós, és um careto. Nunca mais voltas para Lisboa.

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