Caretos à solta I

 

O Francisco estava farto de Lisboa, do stress, de mais de metade do salário ser gasto a pagar a renda do estúdio minúsculo onde vivia, dos engates de uma só noite, quase sempre com turistas estrangeiros que nunca mais voltava a encontrar. Sentia que não tinha objetivos, nem nada de sólido onde se agarrar, a sua vida já de 35 anos, que antes achava excitante, tornara-se repetitiva e vazia.

Por isso quando soube que era o único herdeiro de uma quinta em Trás-os-Montes, onde um tio-avô que ele nunca conhecera vivia até então, decidiu que era um sinal do destino para transformar a sua existência. Felizmente o teletrabalho era agora uma possibilidade e por isso não precisava largar tudo, desde que houvesse internet poderia continuar com o emprego que tinha. Mas ia deixar de ser o típico gay urbano, entre o dia passado a olhar para o ecrã de computador no open space da empresa e as noites a olhar para o ecrã do telemóvel nos bares de sempre, com uns intervalos para trabalhar o músculo no ginásio.

Agora ia poder contemplar a natureza, desacelerar e usar os músculos para coisas mais úteis como algum trabalho de campo. Na verdade ele sempre teve interesse em atividades mais rurais, simplesmente nunca teve muitas oportunidades para desenvolver esse gosto. Cresceu nos subúrbios, os empregos eram na cidade, a vida gay era na cidade... mas a vida gay já não lhe bastava, estava tudo visto, era tudo superficial. Queria encontrar o seu verdadeiro eu no campo e talvez, quem sabe, encontrasse aí também uma relação a sério, afinal os homens do Norte sempre tiveram um charme especial, mais rústicos e autênticos, ainda que um pouco brutos.

O pai tentou demovê-lo da ideia, ele já mal se lembravam da quinta que só tinha visitado ainda antes do Francisco nascer, quando casou com a sua mãe já falecida. Aquilo nem era bem uma quinta, era uma casa num ermo, um vale sombrio, com uns terrenos à volta, tudo inclinado, cheio de cascalho, onde não havia nenhuma cultura que se desse particularmente bem, pouca água, pouco sol, muita pedra e muito frio no inverno. Ele que não pensasse que podia do nada tornar-se agricultor e sabe-se lá em que condições estaria a casa. O tio-avô vivia ali sozinho há anos, aquilo devia estar a cair aos bocados.

Mas em vez de o desmotivar, as descrições do pai só lhe deram mais vontade de concretizar a mudança. Ele não teria capacidade de tomar conta de uma quinta a sério, nem tencionava, gostava do campo mas não percebia nada de agricultura, e afinal levava consigo o seu emprego digital. E se a casa estava velha, renova-la seria o seu principal projeto. Era exatamente isto que precisava, algo que desse sentido à sua vida. Entregou as chaves do estúdio ao senhorio, feliz por poder transforma-lo num "Airbnb" e meteu-se a caminho no seu velhinho Opel Corsa onde conseguiu enfiar os vestígios da sua vida lisboeta.

A casa estava em mau estado mas era habitável, afinal o tio-avô tinha vivido ali até há poucas semanas, explicou-lhe o advogado que tinha as chaves. Havia água e luz, mas não havia internet e o sinal da rede de telemóvel era fraco. A internet era um problema, mas enquanto não o resolvesse podia usar uma sala da junta de freguesia, o advogado era também presidente da junta e interessava-lhe assegurar mais um habitante na freguesia que, como todas na região, envelhecia e perdia população. Se ele precisasse de mais alguma coisa era só dizer, o Joaquim tinha contactos com empresas de construção e ele próprio sabia pintar paredes.

O Francisco tentou saber mais informações sobre o tio, que nunca tinha conhecido e lhe deixava aquela herança inesperada. Mas o Joaquim não tinha muito a dizer, era um homem muito solitário, vivia do que cultivava praticamente, "as pessoas diziam que era bruxo, mas já sabe como é, tolices das gentes de aldeia, não ligue". Francisco não acreditava em bruxaria, mas estava curioso em relação ao tio, a única foto conhecida tinha décadas, ele não teria mais de 40 anos quando a tirou, era um homem bonito, forte mas com um olhar ausente. Será que o tio era gay? Explicaria porque nunca casou, mas não explicaria porque nunca tentou sair da aldeia como quase toda a gente, para Lisboa ou França, Suíça... Parecia ter o mesmo apego à aldeia que tinha o presidente da junta, mas esse era um homem do seu tempo, conectado, com iniciativa, simplesmente não ambicionava sair dali, antes ambicionava tornar aquela aldeia um lugar mais moderno.

Pouco depois de Joaquim sair, Francisco não resistiu a abrir o Grindr no seu telemóvel. Era apenas curiosidade para ver a fauna local, disse a si próprio. A menos de 1km havia um perfil totalmente anónimo (seria o presidente da junta?), mas, ato-reflexo, bloqueou-o como fazia sempre com perfis assim. Além desse estavam todos a mais de 30km, a maioria já para lá da fronteira. Bom, seria vida sexual mais tranquila do que em Lisboa, mas já estava preparado para isso. De resto nem tinha pensado na proximidade com Espanha e os 'nuestros hermanos' eram sempre muito práticos em relação ao sexo, não passaria por isso fome, só teria que fazer mais quilómetros para a saciar.

Deixou o telefone e pôs-se a antes a ler um livro que comprou ainda em Lisboa sobre o 'Reino Maravilhoso', um dos cognomes da região. Trás-os-Montes sempre foi a província mais misteriosa e mágica do país, literalmente para lá dos montes, onde se mantinham vivas tradições e lendas únicas e até a única outra língua oficial de Portugal, o mirandês.

Uma das tradições mais conhecidas era a dos caretos

Uma das tradições mais conhecidas era a dos caretos. Do ano novo até ao carnaval, ou entrudo como se dizia ali, era comum os jovens solteiros das aldeias vestirem uns fatos de lã coloridos e decorados com campainhas presas numa bandoleira, que lembrava um 'harness' de couro dos fetichistas BDSM, com chocalhos pendurados à cintura e usarem umas máscaras demoníacas que com os carapuços a cobrir a cabeça os tornavam perfeitamente anónimos. O disfarce dava a liberdade de sair à 'caça' das raparigas solteiras e chocalha-las, ou seja, rodearem-nas e dançarem contra o seu corpo batendo os chocalhos. Antigamente era um verdadeiro ritual de acasalamento e a 'caça' uma oportunidade única para que rapazes se aproximassem e tocassem nas raparigas que não ousariam abordar de outro modo. As raparigas davam gritinhos e coravam muito, mas também aproveitavam aquele raro momento de intimidade com o sexo oposto. Os rapazes tinham imunidade total enquanto caretos e por vezes abusavam disso mesmo.

Francisco fechou o livro, era curioso tudo aquilo, teria que perguntar ao Joaquim se havia caretos na aldeia e se ainda alguém falava mirandês na zona. Esvaziou o carro, comeu o jantar que já tinha comprado no café da aldeia, meteu o saco-cama sobre a velha cama do tio e em breve dormia profundamente a sua primeira noite transmontana. Era outubro, mas ainda não fazia muito frio.

Os meses passaram e Francisco foi-se adaptando à sua nova vida. Fora de facto uma mudança radical. O outono era muito mais frio do que em Lisboa e não havia mar. Muitas vezes acordava com a casa rodeada por uma espessa neblina que só se dissipava ao almoço ou depois, às vezes ficava de um dia ao outro. Mas nada daquilo o desmotivava, antes o fascinava. Com a ajuda do Joaquim contratou dois rapazes da aldeia que fizeram uma série de trabalhos de melhoramento na casa, trocar telhas partidas, limpar a chaminé, pintar o quarto e até concertar uma cadeira com a perna partida. Um dos rapazes era incrivelmente atraente, mas o Francisco conseguiu disfarçar a atração que sentiu. De qualquer modo era demasiado novo para si e preferia manter discreta a sua homossexualidade naquele lugar, era o habitante mais recente, vindo da grande cidade, melhor criar raízes primeiro, tudo a seu tempo. Para escapadas sexuais os vizinhos espanhóis revelaram-se uma boa aposta e já por duas vezes tinha atravessado a fronteira para saciar esses desejos.

O seu ritmo de vida mudou muito, começou a ler mais livros, a passear pelos montes e já quase não bebia álcool. Antes aprendia a reconhecer o barulho dos animais, o canto da coruja ou o uivar dos lobos ao longe. Sem bares, nem renda para pagar, a sua vida financeira tornou-se muito mais relaxada, pela primeira vez na vida estava a ver as suas poupanças crescerem. A rede de telemóvel em casa continuava fraca, mas na verdade gostava de ir trabalhar à sala na junta que o Joaquim lhe tinha disponibilizado. Era uma forma de ter um ritmo de trabalho mais normal (mas sem trânsito!), sair de casa, fingir entrar num escritório a sério, embora os verdadeiros colegas de trabalho estivessem todos a centenas de quilómetros.

Quando caiu o primeiro nevão, em dezembro, ficou maravilhado. Vivia de facto no 'Reino Maravilhoso', a sua humilde casa no vale sombrio ganhou uma nova cara, pintada de branca, parecia um conto de fadas. Tirou centenas de fotografias, em Lisboa nunca vira neve. Parecia um sonho. No natal tentou convencer o pai a visita-lo, mas o pai insistiu que já não tinha idade ou saúde para a viagem, que não queria enfrentar o frio, e assim voltou pela primeira vez a Lisboa. Pensou que seria uma boa oportunidade de matar saudades de amigos, bares, amantes. Mas rapidamente deu conta de que as suas saudades eram poucas, e amigos, bares e amantes prosseguiram as suas vidas sem o Francisco e sem problemas. Acabou por ser um natal sossegado, com o pai.

Depois do ano novo já não via a hora de voltar a Trás-os-Montes e assim, no primeiro de janeiro já estava de volta a sua casa e foi com alegria que a descobriu de novo pintada de branco pela neve. Naquela mesma noite surpreendeu-o um grupo diante de sua casa, liderado pelo Joaquim, para lhe cantar as janeiras, os cânticos tradicionais da época. Sentiu-se genuinamente emocionado com aquele momento e o facto do grupo se ter dado ao trabalho de fazer um desvio significativo só para lhe dar um bom ano. Não fazia ideia do que era normal oferecer como donativo, mas sentia que devia já tanto àquelas pessoas que não hesitou em tirar a nota de 50€ que tinha na carteira.

- Uau! Do teu tio não tínhamos mais do que um euro, obrigado Francisco, vai ajudar nas celebrações do Carnaval. Bom ano! – Despediu-se alegremente o Joaquim e o seu grupo.

O inverno seguia frio, mas aquecer-se à lareira era tão mais romântico do que aquele aquecedor a gás que tinha no antigo estúdio. Um dia, já perto do Carnaval, acordou com o barulho de chocalhos e pensou que algum rebanho lhe tivesse invadido o quintal à volta da casa. Espreitou pela janela e viu um bando dos famosos caretos! Fascinante! Foi a correr pegar na máquina fotográfica e abriu a porta ainda em pijama.

- Bom dia! – Atirou com um sorriso e um aceno.

Mas dos caretos só teve como resposta as batidas metálicas dos chocalhos. Eram meia dúzia e continuavam a subir o caminho até à sua porta. Deu conta que estava só de pijama e fazia frio, mas não podia bater a porta na cara dos rapazes, que de resto eram de certeza os rapazes da aldeia, que já conhecia de nome. Tentava identifica-los pela forma como caminhavam, a forma do corpo ficava muito alterada por aqueles fatos volumosos, e as máscaras longas e carapuço na cabeça tornava difícil sequer perceber a altura. Seria aquele o Leandro, o mais belo rapaz da aldeia que lhe pintou o quarto?

O grupo estacou a dois metros e apenas um deles se aproximou. Francisco continuou a tirar fotos, curioso com o que se passaria a seguir. O careto que avançava trazia um saco na mão, certamente andavam a recolher donativos para a festa que iam fazer na aldeia, já tinha ouvido falar. O careto estava agora mesmo à sua frente, e agitava o saco com ambas as mãos.

- Queres um donativo é?

O careto acenou.

- Não és muito falador.. deixa-me só ir buscar a carteira.

Francisco voltou a entrar em casa mas o careto seguiu-o imediatamente.

- Não precisas vir atrás de mim, se não falas ficas à porta, se faz favor.

O careto ignorou a mensagem e continuou a dançar pela sala. Apontou para uma das paredes e fez o movimento de quem passa um rolo de pintura. Isso deu a Francisco a certeza de que era o Leandro e relaxou um pouco da tensão que a situação lhe estava a criar. Pegou na sua carteira mas lembrou-se que não tinha nenhuma nota, só umas moedas, não mais de 3 euros.

- Tás com azar careto, só tenho isto.

O careto deu um grunho de insatisfação e começou a dar saltinhos repetitivos que faziam todos os seus chocalhos tocarem no máximo volume. Foi um sinal para os outros cinco entrarem também na casa. De súbito o Francisco estava cercado, aquela situação estava a ficar muito pouco agradável.

- Vá calma, eu depois dou-vos mais qualquer coisa. Vá lá Leandro, eu sei que és tu, saiam se faz favor que eu tenho que ir trabalhar.

Os caretos continuaram a dançar pela sala e a cercarem o dono. Francisco sentia agora os chocalhos a baterem-lhe a toda a volta, não era de todo agradável. Os chocalhos eram de metal, pesados, e de súbito um chocalho acertou-lhe em cheio no sexo e testículos e gemeu de dor, agarrando a zona atingida com ambas as mãos e caindo de joelhos.

- Vá já chega, saiam daqui antes que me zangue a sério.

Os caretos pararam, olhando-o num círculo. O líder, seria mesmo o Leandro, agora parecia mais alto do que ele, fez-lhe um sinal com as mãos, rodando o dedo indicador. Depois?

Foi com alívio que os viu sair. Ainda sentia alguma dor no baixo-ventre, mas tudo estava a voltar ao normal. Teria que se queixar ao Joaquim por esta invasão, era muito favorável a manter as tradições, mas isto era um bocadinho de mais.

O Joaquim riu-se quando ele lhe contou a estória na junta de freguesia.

- Ora Francisco, são só brincadeiras de rapazes. Você devia era juntar-se a eles, afinal ainda é solteiro. Você agora é da terra, tem a obrigação de manter a tradição. E se um solteiro não se junta a eles, então é chocalhado como se fosse uma rapariga.

- Mas como é que eu me junto? – Perguntou Francisco, subitamente percebendo que seria mais agradável estar na posição de careto do que de chocalhado.

- Bom, só eles o podem convidar e só será convidado se eles o considerarem de confiança. Sabe, ser careto é como entrar para a máfia, há um pacto de silêncio, o anonimato nunca pode ser quebrado. E só se deixa de ser careto pelo casamento. Foi o que mais me custou quando casei, eu adorava andar por aí a chocalhar hehehe.

O Francisco foi para a sala onde trabalhava, que fazia também de biblioteca local, apesar de só ter uma dúzia de livros e continuou a matutar no assunto. Se calhar comprar um daqueles fatos não era má ideia e até podia realizar a fantasia do Pablo, um do espanhóis que tinha conhecido e que lhe confidenciou ter a fantasia de um dia foder com um careto. Os espanhóis são uns tarados, pensou com um sorriso malicioso.

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